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Viado Graças a Deus;

13087317_10207708458342088_7805589260832534998_nUma das coisas que me lembro em minha infância com certeza é o cheiro da padaria que ficava na esquina de minha casa. Logo, adorava quando minha mãe me pedia para ir até lá e aproveitava o troco para comprar algo inútil. Como bolinhas de plástico ou balões. E assim como adorava o cheiro de pão e a liberdade de ir até a padaria e me sentir adulto, também gostava de me vestir com as roupas de minha mãe e usar seus saltos. Eu me sentia linda e ainda dançava ao som das músicas da rádio local.

Num dia desses minha mãe me encontrou usando suas roupas. Ela não disse absolutamente nada. Já era tarde e a padaria da esquina já exalava o lanche da tarde. Retirei sua roupa com muita vergonha. Minha mãe me deu um abraço e me pediu pra comprar o que quisesse na padaria. Como estava cansada não iria comigo. Me deu dinheiro e disse: Gostaria do troco de volta.

E lá fui andando. Era o máximo de distância que poderia caminhar sozinho, então aproveitava para andar bem devagar e sentir aquela pequena liberdade.

Como sempre, na terceira casa após a minha, estava Eduardo sentado em sua cadeira vendo a vida passar. Eduardo era com certeza aquilo que eu queria ser. Um jovem alto, de um todo bonito e bacana entre os amigos. Ele era muito querido por todos e eu gostaria de ser querido por todos também, então tudo o que Eduardo representava eu queria ser. Eduardo era macho. Homem. Gostava de meninas revoltadas e não comprava pães para sua mãe. Toda vez em que eu passasse por aquela casa e ele estivesse por lá eu o ouvia dizer: Ei, viado! E eu nunca entendia o porque ele me chamava daquilo. Me pergunto eu quantos assim como eu, ainda crianças tiveram que passar pela estranheza de perguntar aos pais o que era “viado” pelo fato de sermos chamados assim vida a fora. Minha mãe não me respondia, mas eu a via brava. Ela entendia o porque, e eu também poderia imaginar através das expressões que ela fazia de que não estava certo ele me chamar daquela forma. Mas eu realmente queria entender o que era aquilo do qual ele me chamava e que todos os seus amigos mais velhos riam. Onde mesmo eu fazia parte da piada. No fim, minhas perguntas para a família foram desencadeando brigas homéricas nos encontros de domingo e eu ainda ficava sem entender qual era o problema em ser chamado de viado. As vezes eu achava Eduardo bobo por isso. Minha vontade era perguntar o porque ele perde tempo em dizer aquilo enquanto eu passava. Algo dentro de mim dizia que ele não valeria a pena, mas eu trocaria todas as padarias do mundo para ser como Eduardo.

Nesse dia, eu ainda tinha esquecido de tirar todo o batom que tinha colocado para dançar ouvindo rádio. Como de costume Eduardo estava lá e me chamou: Viado! Minha vontade era novamente de perguntar o porque. Mas não o fiz pois desta vez ele se mostrou mais hostil. Talvez não tenha gostado muito de eu ter esquecido de retirar por completo seu desejo do meu rosto. Comprei sete pães e dois pirulitos de marca nova. Como tinha comprado coisas a mais, para que minha mãe não brigasse comigo, comprei então um sonho que tenho certeza que quando ela visse o tamanho e o recheio iria esquecer meu delito e dividir comigo com um chá antes de dormir. Sai feliz e contente até que não entendi mais nada. Há dois metros da padaria o mundo estava completamente escuro, abri os olhos e os pães estavam no chão assim como eu, os pirulitos estavam do lado do sonho que tinha comprado para comer antes de dormir e estavam sujos de barro. Tive a oportunidade de ver ele andando depressa . Mas uma mulher o segurou para que ele visse o que tinha feito. Eu naquele momento tinha mordido a língua, e deveras aceito que precisasse ter mordido a língua porque eu nunca tive a coragem de perguntar o porque. Se ao menos eu tivesse peguntado antes talvez não teria entendido através de um soco no rosto o que significava gostar de usar as roupas de minha mãe.

Com a língua mordida e meus cabelos lindos e recém cortados em formato cogumelo fiz o que tinha que ser feito há muito tempo.

Perguntei.

Porque??

Então Eduardo olhou para mim, com raiva por estar sendo repreendido pela vizinhança, e disse:

Por que você é VIADO!

Agora eu me pergunto no auge de meus 24 anos, após ter feito uma universidade e tido muitas paixões, o porque de eu não ter entendido isso antes. Era só isso Eduardo? Era simplesmente isso que o fazia ficar chamando por mim enquanto eu passava? Se você tivesse falado antes eu não me afetaria tanto e com certeza os humores em minha família não teriam sido problemáticos. Por meio deste texto gostaria de agradecer Eduardo por me alertar que sou maravilhoso desde que nasci. Pela impossibilidade de não clamar por mim ao me ver tão incrivelmente brilhante passando pela rua para comprar pão. Ali eu pude entender que Eduardo precisava chegar mais perto de mim. Deixar em mim uma marca para que nunca mais esquecesse que eu sou, talvez, a pessoa mais inspiradora que ele já tinha visto mesmo que ele não saiba e apenas tinha 10 anos. Queria agradecê-lo também, porque caso ele não fizesse isso eu iria ser como ele. Pois eu o via como algo intocável. Creio que Eduardo me fez entender o sentido de ser viado num mundo como esse. O que eu iria enfrentar dali pra frente são outros quinhentos. Mas ao menos eu sabia que eu era de fato, viado, e que eu amava isso.

Desde esse dia, comecei a fazer “coisas de viado”. Entrei para o teatro e aprendi a me expressar. Hoje me chamam de vagabundo e terrorista. Me chamam de esquisito. E pode acreditar, ainda me chamam de viado.
Estou tentando entender o que seria ser vagabundo, terrorista e esquisito. Porque se for o que estou pensando, eu tenho o prazer de dizer que sou realmente todas essas coisas. A diferença é que não preciso mais esperar ser agredido para tentar entender o que sou.

Que me chamem do que quiserem. Mas eu prefiro mesmo é quem me chama pra dançar.

Quando eu for pro céu, lá estarão 140 Eduardos com vestidos floridos dançando comigo.

Boleráveis em “Jogo de Cena” ou Tiro no pé.

VitrinesHá um certo tempo não ouso escrever. Seja por falta de criatividade ou por puro desleixo ou medo.

Destes, o ultimo me soa adequado quando resumo meus pesares em insignificantes doses de álcool em bares desnorteados.

A dificuldade de escrever me proporciona mais medo e me revolta, me tira sono e me coloca numa posição vazia no mundo. Como se eu entendesse de uma vez o significado da morte em mero 1 segundo, antecipando assim a certeza infinita de que eu não sirvo para nada além de reclamar. Visando que tudo que eu escrevi foi por pura reclamação e inquietação egoísta – como me falam certos amigos e professores universitários – e que nada é reflexo de um personagem que criaram de mim.

A importância de se saber quem é. A importância de saber reclamar sem parecer arrogante. A importância de saber viver sem atrapalhar a sobrevivência de outros como se a minha existência não fosse mais que um buraco na estrada para a chapada. Percebo que desaprendi a falar com deus e virei ateu quando comecei a compor músicas sobre algo mais humano. Estão ali representados meus grandes homens amantes. Meus esmaltes. Meu batom. Minha falta de vergonha na cara, minha fé e toda a minha promiscuidade que resulta no mortal emprego que é ser descriminado dia após dia assim que me levanto e descubro a mulher que existe dentro deste homem de pouca idade e saio na rua ainda maquiado.

Vivo dentro de uma bolha brasiliense – sem orgulho – porém aqui posso me sentir confortável. Sempre valorizei todo tipo de relação e me encontrei nesta vida com diversos tipos de pensadores da vida cotidiana, sejam eles acadêmicos, anarquistas, comunistas, capitalistas, religiosos, caçadores de termos, autodidatas, revolucionários, padeiros e mendigos. E aprendi que a maneira mais eficiente de não se sentir vazio é reclamando meus direitos de existir.

Vivemos uma vida inteira antes de entender esses direitos. Entendo como direito primordial, após passar anos sozinho numa luta incessante para me safar de quem não reclama, o puro prazer da vida da qual eu não escolhi sobreviver. Estou comprometido com o prazer real e surreal das coisas simples que eu nasci sabendo. Eu nasci sabendo andar de salto, nasci sabendo que apalpar rostos com a palma da mão virada significava amor. Nasci sabendo que iria ter uma tarde agradável todo dia em que eu não me importasse em desfilar minhas angustias por ai da forma mais sincera possível. Nasci sabendo que aquele olhar de desaprovação na esquina da padaria, por eu ser diferente, iria se tornar algo do qual eu poderia reclamar nos palcos. Nasci sabendo que de vez em quando eu iria me enfiar em casa e não sair mais por receber esse mesmo olhar. E também me comprometo com coisas das quais aprendi como gostar de uma vida em que as pessoas não sabem e me tornei artista das minhas mais sinceras frustrações.

Na bolha na qual eu vivo eu me sinto no direito de não me fantasiar. Ainda não entendi porque quando estou no palco o mesmo esmalte, maquiagem, salto, homem e mulher são vistos de forma mais amena e responsável. Como se em cena fosse comum usufruir de tudo aquilo que sou e merecesse palmas. Ao sair pelas ruas recebo manifestações diferentes e creio que disso seja a culpa por não querer mais sair desta bolha brasiliense, em que tudo está certo desde que eu não deixe de reclamar da vida “fácil” que temos ali mesmo.

Nessa bolha, estamos cada vez mais inerentes ao egoismo uma vez que negaram que podíamos nos entender de dentro para fora. Negaram que devíamos masturbar nossos erros e negaram que tudo aquilo que temos de referencia primeira precisasse ser compreendida antes de entrar na escola e receber três quilos de bolas de papel nos nossos lindos cabelos sedosos e cheirosos. Tiraram nossas cutículas e espremeram em nossas caras que o certo está la fora, fora de nós. Nos autos, nas bíblias, nos músculos, nas maquinas de aparar e naquela cuspida no chão que cuspi com um tio que disse que era assim que eu deveria me expressar quando não faço nada.

Eu estou com medo. Deixei de reclamar e agora tenho medo. Tenho medo da bolha em que vivo porque preciso sair dela para saber o porque andam batendo palma por algo que a nós parece tão simples. E porque cospem no chão quando vamos a um bar novo e riem de nós sem que precisássemos fazer piada. A família que nasci me transforma em um ipê e tenta me apagar com a poeira da seca. Apresentadores de um JOGO DE CENA nos transformam em gargalhadas fazendo piada de gênero após falarmos de amor. – PIADA DE VIADO NÃO!!! Disse triste meu irmão de reclamação após as cortinas se fecharem escutando a sociedade chique acentuando aquilo que não fomos fazer lá. Acabaram com um trabalho imenso que fazemos para não precisar mais viver nessa bolha em 5 segundos. E voltamos pra casa empanturrados de coxinha com mais zilhões de km de crédito longe de nossa liberdade.

A uns dias atrás fui ver o cuspi que fiz sem grande sucesso na infância. Ele ainda estava lá. Seco. E me mostrava aquilo no qual eu poderia ser caso eu não descobrisse essa bolha. Frágil como as de sabão. Mas também leve e confiante ao subir procurando o céu, louca para passar todas as camadas da terra e chegar a um outro planeta onde estourar e assim conseguir viver sem aplausos por coisas simples.

Há um tempo não ousei escrever por medo de ser intitulado como alguém que reclama demais. E vivi talvez a pior fase em 4 anos porque algo dentro de mim me dizia que eu era um merda. Mas depois percebi que era como cuspir no chão e coçar o saco rindo de mim mesmo. Me tornei a própria piada.

Sou homem, mulher, latino-americano, gay, moro numa chácara, estudo teatro, falo de amor, platônico, promíscuo, selvagem, ateu. E repudio qualquer ato de covardia a qualquer tipo de representação da sinceridade seja ela da forma que for. E vou continuar reclamando até que as coisas simples não precisarem mais de aplausos ou virarem motivo para que ao sair do teatro possam lembrar mais da grande piada que somos nós passando batom do que da beleza que somos nós passando batom.

Memby rypy’a.

Não há nada mais brutal do que ser uma mulher paraguaya. Não me atrevo a definir no qual sentido estou usando a palavra “brutal”. Seria de muita falta de consideração caso o fizesse, uma vez que já coloquei uma palavra dessas para considerar o verdadeiro encanto do meu país.

Uma vez um amigo meu me disse: “Ser latino é ter uma cicatriz profunda”. Desde que recebi essa frase, fico olhando as mulheres paraguayas e não sabendo muito como lidar ao lado delas .Me sinto do tamanho do insulto que é quando dizem que não fazem diferença.

Isento de sabedoria, observo primeiramente as mãos de minha abuela. Mulher de traços limpos, calejada pelo tempo e com boca fissurada de tanto tomar chimarrão pela manhã. Não há nada mais brutal do que uma senhora, matriarca, tomando chimarrão após acordar. A mão firme, e cheirosa de q-boa, segura a cuia e a bomba esquenta a boca e seu coração latino, machucado y herido por ter de cuidar, arrumar, lavar e secar seus seis filhos todos os dias.
Aquela mesma mão que bate com a fina varinha de pitangueira nas pernas dos infiéis netos que ousam definir o porque ela é tão brutal.

Quem é mesmo capaz de infringir a moral e os costumes, de uma abuela, merece punição. Quando era infante não entendia. Hoje já começo a me desculpar.

Todo e qualquer homem é bobo e suas forças não chegam aos pés. Cresci argumentando sobre como poderia escapar de ser muito homem enquanto meus tios não sublinhavam nem um piu.

O que uma matriarca diz deve ser levado em consideração mesmo discordando.

Somos todos criados por nossos antepassados pós-guerra. Dizimados, os homens, sobreviveram com a única força que resta num país humilhado por seus vizinhos. Mulheres órfãs de seus maridos e filhos, levantaram toda uma cultura e tiveram de consolidar uma nação cabisbaixa. Talvez por isso eu nunca tenha visto minha abuela abaixar a cabeça nem para ver se o tapete estava sujo.

Minhas tias sabem do que falam sem mesmo tirar prova de seus discursos. Elas sabem o que é bom para todo mundo e isso aprendi escutando fofocas.

Em suas conversas, homem nenhum era exemplo. E nunca estava certo um exemplo ser um homem. A maioria são mães solteiras e casaram algumas vezes por não aceitar submissão por homens que não sabem de nada e encaram com medo um machismo burro e leigo. Obedecem sem perceber.

Logo após as mãos, eu encaro o rosto de minha avó desaprovando meus atos masculinos. Em contrapartida, aplaudindo minha irmã dizendo que afazeres domésticos estão fora de cogitação para mim. Cuidar da família é pra quem é forte. Mulheres o são; homens devem beber, serem porcos e trazer dinheiro, o resto é com elas. A administração é com elas.

Aprendem desde cedo que cada cicatriz representa respeito. Quanto mais machucados, aumenta o valor de um ser vivente. Só merece respeito aqueles que se importam, e como são esses que se machucam, são esses a que não se deve negar e nem desmentir. Homens não devem se importar com nada disso. E a eles então se dá o pleno prazer do gozo, mas não honras.

Religiosos, seguem o cristianismo ao contrário. Elas sabem disso,. Elas não devem se explicar. Machismo torto, porém dos piores.

Não posso deixar então de falar de minha santa mamacita. Nos criou sozinha, seus 4  filhos. O pai, brasileiro nunca foi capaz de entender como uma mulher podia ser tão soberba. Aqui as coisas funcionam diferente. O sistema do patriarcado dá o prazer do gozo e o respeito apenas ao homem. Ás mulheres se dá tarefas e a fama de bondade suprema.

A única vez em que vi minha mãe de cabeça baixa, ela estava abaixando para agarrar seus filhos num braço só. Quase ouvi: – Não me façam repetir esse gesto. Filho nenhum meu vai pisar em lama por desatento.

O aviso é dela, a obrigação é nossa. Somos independentes desde que aprendemos a trocar as fraldas ainda bebês.

Não existe nada mais brutal do que ser uma mulher paraguaya. São elas e apenas elas de que me lembro quando me perguntam sobre família.

A foto na sala é de minha bisabuela. O retrato pintado de quase santa no corredor é minha abuela. No meu criado mudo minha mãe exibe exemplos o tempo todo. Caso quiser ser alguém forte, devo me espelhar nas mãos de quem tem coragem de parir sozinha uma sociedade inteira e ainda assim das o gozo e o prazer a outros.

Tento encerrar mudando um pouco a fala de meu amigo: “Ser paraguaya é ter cicatrizes profundas.”.

E vale ressaltar que essas cicatrizes são a versão curada de machucados rapidamente fechados.

Não há tempo de chorar suas dores, há um país inteiro para salvar.

Da sinceridade.

O fazer é extremamente primordial, assim, como a decisão. O que deve ser feito precisa ser decidido – e se deve fazer uma decisão. Entendo sobre profundidade de todos os materiais e imateriais com pesquisa interna. Atento. Pois dali, apenas dali sairá decisões. O mundo não possui decisões. O mundo não pode decidir por mim.
Entendo agora o clichê e dele me utilizarei apenas para que algo realmente seja vago por que decidi. Decisão estabelecida por consciência de que algo pode ser vago. Que tudo realmente seja consciente. A conciência é a certeza da sinceridade. É nela que reflete qualquer dúvida, atitude, ações, afirmações. Não existe qualquer sinceridade inconsciente. A isto damos um nome de inocência. E a inocência é uma ignorancia clamufada por falta de experiências e informações.
A sinceridade deve rever todos os aspectos sem preconceito. Tem de saber lidar com os dois lados da moeda sem que o preço signifique mais que seu simbolo e vice-versa.
A conclusão de fatos me traz uma epifania, devo entender a epifania, antes de criá-la e soltá-la no mundo. A epifania é ainda uma sensação eterna de vômito preso na garganta- quente e ardente: um sofrimento. A reflexão e o entendimento da epifania deve-se a uma série de fatores vindo de experiências, coragem, força de vontade, e logo após o vazio. Se não houver fome após o esvaziamento, a sinceridade não vale de nada. Estará solta, singular, sozinha, perdida sem futuro, e sem continuação. Pois o mundo vai tentar, então, decidi-la por você. Uma sinceridade já decidida anteriormente, corre o risco de ser redecidida por outro. E isso é algo que não sou contra de maneira alguma. Não recuso as visões diferentes que podem tornar a sinceridade totalmente contrária ä epifania de origem, porém, ao se lançar algo sincero, ele deve ser de responsabilidade de seu criador.
O sistema digestório foi escolhido como metafóra, e admito que por me soar mais forte em relação ao respiratório ou circulatório que me passam uma condição de leveza, doação – generosidade.
Uma sinceridade não pode ser generosa, ela não deve querer ensinar nada a ninguém, mas sim, confortar personalidades pelo simples fato de que decidir nos leva a fazer e fazer nos leva a expressar e a espressão é a melhor maneira de vida, de criação de vida. Movimentação, estrela de cinco pontas.
A sobre-vida ou sobrevivência, como preferirem, está na epifania que não possui experiências, e informações para crescer e criar vida sozinha, e logo após ser recheada novamente por seus responsáveis e pelos novos responsáveis. Um sobrevivente é apenas uma flor que não floreceu, não por condições do clima ou terra, ou por alguma ação externa, mas porque simplesmente não floreceu. Não foi avisada de que podia, não sabia.
Um sobrevivente não consegue ser sincero. Está sempre no entre. Entre suas condições, planos e sonhos – Este ultimo longiquo. Um sobrevivente espera alguma decisão do mundo de quando poderá fazer uma horta ou ter tempo de começar a gostar de lavar louça.
A sinceridade já foi decidida. Há muito tempo se confunde sinceridade com imediatismo, ou impulso, ou falta de um segundo pensamento, contudo, antes de seu nascimento, a sinceridade possuia a idade de todo o universo apenas como epifania, até que o estômago do espaço-tempo decidisse que a epifania tenha pernas para andar e boca para falar por si só.
Logo, presumo e entendo sinceridade como a forma mais neutra e rápida de comunicação – uma vez que cada sinceridade tem poder de gerar mais epifanias e assim mais sinceridade. Algo não sincero não é algo decidido. As mentiras são inventadas e criadas sem alguma epifania. São desde já natimortas.
A mentira é a rainha dos sobreviventes. Por isso a hipocrisia daqueles que não vivem. Infelizmente alguém vem roubando as epifanias de forma indireta. É preciso alimentar as epifanias, caso contrário elas não se tornarão sinceras, desta forma nascerão natimortas. Mortas de fome em plena gestação.
É extremamente necessário fazer. É obrigatório a aqueles que possuem possibilidades e sorte de serem sinceros. Capazes também de desvendar epifanias a si mesmos e serem sinceros a si mesmos.
A decisão não está no mundo, mas nele está o fomento, e este fomento não deve ser negado ou ocultado ou pior: extraido. Ninguém tem o direito de me roubar o entendimento de uma epifania.
Aos sinceros: Sejam sinceros. Esconder sinceridade podendo ser sincero é o pior crime e o flagrante condiz com 20 anos de prisão em qualquer mundo indefinido. Não ser sincero é roubo.
É roubo passivel de pena eterna num mundo cada vez mais enganoso.
Logo… Decidam-se.

Pouca história.

Uma menina pequena, 18 anos, e pouca história pra contar. Morou em chácaras no Paraguai durante a vida toda até ficar grávida de um brasileiro, e se casar tão nova que nunca tinha aprendido a amarrar os cadarços de seus sapatos começando com um laço.

Não questionava muito para onde ia mas sabia de seu filho. Quando nasceu, ela com sua inocência e generosidade viu o seu filho: “Meu filho” disse entendendo e nessa mesma hora compreendeu que amarrar os cadarços dos sapatos começando com um laço era extremamente necessário, uma vez que agora precisaria ensinar.

Num dia qualquer disseram que ela iria viajar. Foi sem pretensão, afinal que pretensão haveria em uma menina que apenas entendia seu filho.. Era seu apenas porque o tinha visto.

Seus dedos dos pés abriram ao chegar ao destino ao pisar em zilhões de pedrinhas minusculas que chamavam de areia de praia, essas que não sujavam nada a não ser caso ela se sabotasse ao ponto de não lavar seus pés.

Não tinha muito o que dizer sobre onde estava, pois, não tinha referências e não entendia o porque daquele monte de água ser salgada. Vem e vai, Vem e vai, não conseguia brilhar mais do que aquela tarde.

Então, no momento no qual precisava existir muito antes dela ter pensado em aprender outro jeito de amarrar os cadarços, uma criatura estranha saia daquilo que chamavam de areia de praia. Entendeu tudo. “É meu”, disse e entendeu que estava parindo novamente e que nada mais importava além do pequeno siri que agora era dela porque simplesmente o tinha visto. Correu atrás, porém o bicho era mais rápido que o som das vozes pedindo para que ela voltasse, pois, já estava a se afastar muito. Avistou uma mulher e não exitou em pedir: “Moça me ajuda! Aquilo é meu, eu vi ele, eu vi… Ele é meu…” A moça sabendo que o nexo daquilo tudo já tinha se perdido se enterrou na areia, cavou um buraco tão fundo, surgindo assim o buraco do tatu, em Brasília. A menina estava cansada e não percebeu que junto com a moça o siri atravessou o tunel e encheu o tanque de gasolina num posto qualquer do setor hoteleiro sul. Sumiu. Que tristeza… Que tristeza. Lembro-me como se fosse ontem de como a expressão de vontade no rosto da menina passou a ser de tristeza e estranhamento. ” É meu… Ele se mostrou pra mim então ele é meu… Eu que vi ele, eu que vi. Ele queria que eu visse ele, porque senão ele não teria se mostrado pra mim, poxa vida… Volta pra mim, eu te vi…”

Calou ali por dois anos amargurando a perda. Magoada pelo siri que a enganou no amor. Chorou pouco, contudo agora já aprendeu a amarrar os cadarços de seus sapatos de todas as maneiras possiveis, e já podia ensinar ao seu filho. Num estalo, percebeu que se o siri a tinha deixado, desolada numa passagem que não entendia, o seu filho podia não fazer diferente.

Correu quilometros voltando, escutando cada vez mais uma multidão chamando o seu nome. Foi quando viu seu filho pela segunda vez e ele já tinha envelhecido e se orgulhava da barba. Abraçou e beijou o rapaz, ajudou-o a fazer as malas com muito amor, se despediu. Estava grande e iria a uma universidade. Fez carinho, agora um pouco mais entendida, o viu amarrando os cadarços começando com um laço só. Soube que não era mais necessário entender tudo e foi dar um mergulho no mar. Fico aqui caprichando nos depoimentos tentando provar que você é meu. Eu te vi em uma noite então você é meu. Se não fosse meu, não haveria de ter se mostrado. Eu te vi, juro que te vi. Posso contar nos dedos da sua mão quantas vezes eu te vi.

Sou míope. Estou mentindo. Se eu vi não sei, Se eu vi não sei, Se eu vi não sei.

A menina, agora já velha, tem um criadouro de siris soltos pelo mundo. Viu tanto que escapou. Canta e fala em alemão. Viaja sozinha e nunca mais voltou para a chácara com medo de não conseguir entender que mulheres cavaram o buraco do tatu.

Numa dessas vou atrás de você só pra ver você sumindo novamente, cavando mil buracos pra ser perdoado de ter se mostrado pra mim.

Eu te entendi menina. Eu te entendi.

João e Maria.

Extremamente aliviado estou a botar a mão no fogo por mim. Você Se Sente Amado? Sim! Me Dê Um Workshop Para Que Eu Também Possa Me Sentir Amada Depois De Ser Excluída Da Fogueira Quando Tiraram A Mão Do Fogo Por Mim. Sem pressa Querida! Num sábado qualquer, veste um roupa bonita, e me ligue dizendo, Estou Pronta! Quando acender tua fogueira com pedra e água, vai entender que mãos no fogo não são melhores e nem mais perigosas que mãos no teu peito ou bunda. Foi ai que três onibus passaram na L2 e nenhum deles tinham mãos no fogo. Estavamos completamente fracassados conversando sobre superar, porém o primeiro onibus que passasse com mãos dispostas a se queimar por nós, estariamos dando sinal. Porque somos hipocritas e numa segunda ninguém é capaz de vestir uma roupa bonita.

Sabe o que eu queria mesmo? Ter intimidade o bastante pra saber com qual frequência você troca de cuecas. Com qual frequência você bota a mão no peito ou bunda de meninos indefesos e com qual frequência você sintoniza todas as mãos no fogo que existem na fogueira que você acendeu. Idiota! Seu idiota! Seu grande idiota! Buscou com essa cara de nada, toda a lenha. Pra sair de surpresa com cinco pedras na mão atirando em mim. Catei as cinco e juntei tristezas de amizades futuras e construi uma fogueira maior de pedra e água. Subiram o preço da passagem de onibus, subiram dois cadeirantes e subiram meu vestido. Apalparam meu peito ou bunda porque sou frio demais pra botarem dedos no fogo por mim. Agora dedos em outro lugar são válidos quando carências sobem vestidos.

Estar bonita não vem de fora, vem de dentro. Recebi uma ligação ontem e escutei, Estou Pronta! Corri, estabeleci um jogo, recuei, perdi a bola e olha só… escanteio. Falsa Falta. Sem replay. Estou pronta me disse. E quem disse que eu tive coragem de dizer, Eu Não! E do mesmo jeito que vim ao mundo, com cinco pedras na mão e muita mágoa, rezei um pai nosso, e roubei gasolina do onibus de numeração 110.2, comprei fósforos na padaria que não tinha pão mas tinha fogo.

Cheguei, e ela realmente estava pronta, roupa bonita, blush brega. Joguei gasolina, estava em glória, ela disse, O Que Você Está Fazendo? Respondi com mais gasolina e então o fósforo foi um bonus. Acendi, joguei. Pude ver em slow motion o fogo se resumindo. Nasce então uma fogueira linda com fogos de artifício e cores iguais às da L2. Tocava música e tinha uma banda.

Extremamente aliviada, botou o corpo todo pra jogo. O corpo no fogo por ela.

Incendiamos cinco superquadras e dois hotéis de luxo. Um setor militar urbano e qualquer bar que venda conhaque ruim. A cidade caiu. Agora nada de eco. Todas as cuecas viraram cinzas. Porque é a cor que eu mais gosto e assim parece que ninguém troca de cueca. Parece mentira quando dizem que é porque tem 4 dessas. Falso! Quando te ver botando a mão no fogo por alguém novamente, corro e te empurro. Bruxo! João e Maria. Casa de doces. Não passa de um ferrero rocher sem recheio. Vou cumprir prisão e sair por ai jogando gasolina, bebendo metade e atirando o resto.

No fim, queimamos os dois ali por sete anos e meio e fomos pra casa ver o que tinha pra jantar.

3D

Menina que caiu no bueiro não quer ser retirada de lá para não ser conhecida como menina que caiu no bueiro. Rapaz que caiu aqui em casa não quer sair daqui de casa para não ser conhecido como rapaz que caiu aqui em casa. Tentei expulsão. Tentei retratar ódio jornalistico no pior noticiário da cidade e não obtive sucesso por que eu aceito meu fracasso. Fracasso está na linha tênue entre não conseguir e ainda fazer pose. Aceitar fracasso é dar a volta por cima. Eu estou entre fracasso e a volta por cima.

Meninos maldosos não dão a volta por cima. Dão a volta por baixo. Dão rasteiras. Eu caio de vez em quando e fico lá, olhando do chão os dois se amando e o gole de alcool ainda é pouco. Não foi fácil estabelecer contato com o rapaz que caiu aqui em casa e ainda continua na minha porta me olhando entreaberto.

Do bueiro a menina sussurra que sente vergonha, mas pede para ninguém se preocupar pois não quebrou nada. Arranhou a coxa e o braço mas já está ficando boa. Vai fazer 5 plásticas pra ficar parecida comigo e assim os dois serão conhecidos como lixo que entope. Escoamos a todo segundo num esgoto sem saida. Fracassados. Vejo minha vida sentimental estragar meu ego e reputação e ainda não consigo perdoar aqueles braços selvagens mostrando quem realmente deve ser protegido de mim. A qualquer momento posso acabar comigo mesmo e nem por isso mereci um abraço. Sou mal. Sou cruel. E algumas mulheres que cantam mpb fogem de mim porque eu desafino na nota Si.

Triangulos amorosos não cabem em uma foto. Triagulos amorosos são em 3D e eu não tenho óculos, mesmo assim a miopia não me impediu de ver você me olhando enquanto fulano ia ao banheiro mijar no bueiro da menina que ainda está lá esperando pela cirurgia na cara.

Não era eu. Nunca foi eu. Quem deu rasteira na menina pra se defender foi quem merece proteção de corações brilhantes enviados por telefone. Seria engraçado caso a fragilidade fosse sincera.

Cantei boleros a noite inteira e ainda não consigo irritar o rapaz que ainda está caido aqui em casa. Revelei fotos e amores e colei na minha parede pra dormir lembrando que não foi tudo em vão. Bueiros são vãos, meu devaneio não.

Estou completamente perdido dentro da minha própria casa de 5 comodos, e o rapaz que caiu aqui ainda ocupa meu espaço me olhando de lado. De canto no canto. Ocupa minha cama de noite e não dorme enquanto eu sonho em destruir ruas e ser violento com meninos maldosos.

Venho por meio deste declarar que perdi. Fracassado. Humilhado na praça central. Foi quando, por vergonha, entrei no bueiro e encontrei uma menina que queria ser eu. Para minha sorte sempre levo comigo um kit de primeiros socorros e limpei sua coxa e seu braço. Transamos. Ainda quero relatar que ainda assim farei pose pra manter meu desastroso ego.

Não há de ter coisa melhor do que se sentir traido por você mesmo. Venho por meio deste declarar que estou completo. Se algo der errado coloco uma peruca e finjo que sou loira. Tiro selfies, em 2D. Choro em Surround sound 5.1, quem sabe o rapaz se irrita e vaza da minha casa. Caia em outro lugar.

Vai passar… vai passar.